Polaroid de loucura ordinária - O relato escrito de uma vida profuga.

29/12/2006 06:29

O QUE SERÁ MAIOR...

...o Amor ou a Morte?

Por que diabos se ama? Se ama, e como se nada. De repente. O cara está lá, senhor de si, cuidando da sua vidinha, conforme suas regras (ou a ausência delas), e, como se já fosse comum, cai alguém no seu caminho. Ou ele cai no caminho de alguém. Pode ser de qualquer maneira: no supermercado, apresentado por um amigo, esbarrando sem querer no ônibus,na mesma sala do vestibular, num chat por aí. E, meu amigo, quando vem, vem mesmo, saca? É inevitável. Sério, experiência própria!
É mais ou menos como um solo de jazz: o baixo sossega, a bateria fica só marcando, baixinho, o piano vai pros graves e, quando se vê, pronto, já se está no meio do solo do saxofone, o polegar pressionando a chave de oitava, soprando, soprando até ver estrelas, até explodir. Acho que o amor é isso: um solo de fusion, de sax alto.
Quem gosta de Jazz sabe do que eu tô falando. É incrível fechar os olhos em pleno solo de um fusion e se deixar levar, flutuando a um mundo extático de música e paixão. Paixão de arder, mesmo.

Mas, voltando. Amor, não é? Então. É ótimo. É aconchegante. É ter dois ombros pra quando se precisa de um. É ter um colo quando nem o da mãe adianta mais. É ser ouvido por -pelo menos!- UMA pessoa. É ter alguém que gosta de você, mesmo sabendo que você é um completo idiota, de carteirinha e tudo. É achar graça nas patetices mais infantis. É ficar puto às vezes. É saber que, mesmo que o mundo inteiro te mande à merda, você tem seu porto seguro, um lugar pra onde correr quando as coisas não dão muito certo. É ser incompreendido. É ser compreendido com um olhar. É querer dormir junto, almoçar junto, mofar junto, até ir ao banheiro junto. É não querer desgrudar nunca. É não querer olhar na cara. É querer distância. É ter saudades. É engolir o orgulho. É pedir e aceitar desculpas. É saber que aquela guria, aquele torrãozinho lindo de açúcar, que às vezes te põe doido, ela também pensa em você o mesmo tanto que você pensa nela. É ter vontade de chorar desabrido, de alegria por ter encontrado alguém tão linda, tão... tão ela mesma! É amargar um ciuminho. É provocar ciúmes. É provar que mesmo que aquela filha-da-puta daquela ruiva linda, de olhos verdes, pele clarinha, sardas no rosto e no colo, barriguinha chapada e cinturinha de abelha, gostosa que só ela, venha se derretendo toda pro seu lado, você não abre mão da imperfeição humana, real e maravilhosa aos seus olhos, que só ela tem! É ter ciúmes do passado. É levar beliscões. É fazer beicinho. É consolar. É ser pai, amigo, irmão, confidente, namorado, marido, noivo, amante, professor, aluno, poeta, eterno Romeu, incorrigível Don Juan. É ser piegas. É ser clichê. É usar um porre de lugares-comuns. É abusar da insensatez. É acreditar que cada palavra que sai da boca dela foi soprada por um anjo. É desconfiar que ela é encarnação de uma Musa grega. É ter a certeza de que tudo quanto se diga, por mais lindo que seja, ainda vai ser pouco pra descrever o que você sente por ela. É sonhar juntos. É ter decepções juntos. É dizer: "Sossega, e me deixa dormir, pô". É morrer de vontade de abraçar. É morrer de raiva. É morrer de tesão. É morrer a cada despedida. É morrer. É viver a vida em sua forma mais simples, e ainda assim, a mais complicada. É se sentir tranqüilo, porque não há pressa. É querer correr e viver tudo agora, porque a vida é curta. É planejar envelhecer ao lado dela, de pijamas no sofá da sala, assistindo à porra da novela. É combinar em tudo. É discordar em tudo. É tecer um fina e delicada trama ao redor dela, como uma aranha fiandeira, pra que ela fique totalmente enrolada em você. É ter medo de perdê-la. É se sentir seguro. É tremer de insegurança. É rachar a conta. É dividir o último gole de Coca que sobrou na geladeira, já totalmente sem gás, mas não por isso menos disputado. É querer que ela fique com a maior parte do gole. É ficar satisfeito quando ela aceita. É ficar amontoado no sofá num dia de chuva, bundando total, assistindo um filme babaca qualquer. É adorar isso. É aparecer de repente. É fazer uma surpresa. É ser surpreendido. É ouvir Beatles e cantar junto. É querer mudar tudo nela. É querer tudo do jeitinho que está. É se sentir mal por ela, quando algo não vai bem. É se alegrar por ela, quando tudo corre tranqüilamente. É fazer draminha quando fica doente, só pra tê-la perto por mais tempo, numa -sacanérrima- chantagem sentimental. É apresentar a ela livros, filmes e músicas que ela (e grande parte da população mundial) nunca ouviu falar. É ver que ela não gosta tanto assim, provando que os opostos se atraem. É ensinar muito. É aprender ainda mais. É abraçá-la na chuva, quando ela treme de frio entre seus braços. É cantarolar a "nossa música" no ouvido dela, baixinho, e perceber que ela ainda se arrepia por isso. É ver que você também se arrepia. É não pensar em quanto tempo vocês estão juntos, porque sempre parece que estão juntos há mais tempo de que estão e ainda assim, parece que foi ontem que vocês começaram. É se identificar com todo filme e toda música. É se sentir livre-preso-livre, mais livre do que preso. É ter certeza de que ela sempre vai estar por perto. É imaginar como vocês reagiriam se terminassem. É chorar só de pensar. É cogitar a possibilidade a sério. É discutir. É se humilhar. É ficar embasbacado, olhando pro nada, lembrando dela, e rir sozinho. É não parar de falar dela, a ponto de irritar os circunstantes. É querer levá-la pra tudo que é lado. É querer ir sozinho a outros. É descobrir que sem ela não tem a mesma graça. É ter uma nova família. É reclamar dos novos parentes. É reclamar dela também. É ficar brigado uma semana, e morrer de saudades, e não dar o braço a torcer. É dizer que não vai ligar, quando tudo o que você mais quer é correr pro telefone. É ter um dia de merda, cheio de derrotas morais, e achar que foi o melhor da sua vida, porque ouvir a voz dela, à noite, é um Gelol pra alma. É passar horas no telefone. É querer desligar logo. É nem ligar. É ligar de madrugada pra dizer: "Só liguei pra dizer boa noite, amor. Dorme com Deus". É querer levar "um beijo pra semana", ao se despedir no domingo à noite. É fazer caixinha de recordações, fotos, papéis de bala, fios de cabelo, as menores bobagens. É procurar a presença dela pela casa, no banco do carro depois que ela desce, caçar um copo, um talher que ela tenha usado, porque é a presença dela ali, mas que não serve de nada, além de aumentar a saudade. É saber que essas e outras são bobagens saudáveis e necessárias. É saber que ela é um mal necessário. É achar o veneno doce, doce. É olhar aquele alvorecer esplendoroso ou aquela chuva linda e se perguntar se ela está vendo. É estar acordado de madrugada e saber que ela está dormindo. É começar a imaginar como ela fica linda quando dorme. É querer dormir com ela, só pra ficar admirando, beijando e babando nela enquanto dorme, mesmo sabendo que você dorme bem antes dela. É vê-la recém-saída do banho, cabelo molhado, cara lavada e achar ainda mais linda do que quando ela se arruma toda. É achar a coisinha mais maravilhosa desse mundo quando a vê de camisola, ajeitando os travesseiros. É ficar olhando pra ela enquanto ela está distraída, pra captar todos os movimentos, gestos e expressões mais naturais dela. É ter medo de que um dia acabe. É carregar a certeza humana de que tudo acaba, de um jeito ou de outro. É não querer pensar nisso, sendo inevitável. É saber que, mesmo que os anos levem a beleza e a vitalidade dela, a essência nem a morte poderá tirar. É querer morrer ao mesmo tempo, pra nenhum dos dois ficar sozinho. É rezar toda noite pra que haja um Paraíso, pra que vocês possam se encontrar lá, e passarem o resto da eternidade juntos. É entender o conceito de eternidade, mesmo sendo efêmero.

É ter a energia das crianças. É ter a paciência dos idosos. É ter a onipotência do homem. É ter a eternidade de Deus.
enviada por _Seamus_






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