Polaroid de loucura ordinária - O relato escrito de uma vida profuga.

15/06/2007 05:49
VEJA VOCÊ, ONDE É QUE O BARCO FOI DESAGUAR...
...será tudo tão surpreendente assim, sempre?


Pois é. Hoje é... *checa o calendário do computador* 15 de junho, dois mil e sete. O último post foi em 29 de dezembro, 2006. De lá pra cá eu já consegui um emprego massa, já saí dele, já passei no vestibular, já saí de casa, já mudei de cidade, já fiquei de saco cheio da faculdade, já achei que era o curso errado, já quis mudar, já mudei de idéia, já viajei em um mês o que não viajei na vida toda, indo e voltando da cidade onde estudo, fiz tour em Sampa, fui pra Aparecida... Que inconstância...

Mas, uma coisa eu reparei, e desse fato só fui capaz de me aperceber nessas minha andanças pelo mundo: que falta eu sinto de Bauru. Nossa cidade é sempre um saco, sempre um tédio, sempre a mesma coisa, salva seja, mas basta por o pezinho lindo pra fora das fronteiras dela e bate a nostalgia, a saudade...




Bauru é um pontinho luminoso no mapa noturno do estado de São Paulo, cravado bem no centro, coração do estado. Cidade Sem Limites? Pequenina, 450.000 habitantes; fundada em 1896 esse pedacinho de chão que eu chamo de meu tem apenas 111 anos, a serem completados em 1º de agosto próximo. Tão pequena. Tão imensa. Em Bauru estão meus piores erros. E meus poucos acertos. Meus melhores amigos, meus mais mortais inimigos. Meus amores passados, meus presentes, quiçá meus futuros. Pérola de sangue, ódio e dinheiro. Manancial de amor, se você souber onde encontrá-lo. A meio caminho entre o céu e o inferno, está Bauru. Diamante de brilho raro, único, seduz, acaricia e atira para matar. Incrustada no centro de um pequeno vale, o vale do rio que leva seu nome, se vê como que escondida entre as colinas que a cercam, tratando de esconder a vergonha de ser o que é: o símbolo da estagnação, da dor, da renúncia. Nem só de glórias se escreve sua história. Suas histórias. São muitas as histórias que rondam por suas ruas decadentes, de solilóquios e morte. Muitas são as que evoco passando pelo seu Calçadão de comércio ordinário e ordinários passantes. Pela sua Rodrigues Alves de noites vadias e vadias prostitutas. Andando por suas ruas, piso o quintal de minha casa. Sinto-me no meu quintal. São muitos os destinos em Bauru. Poucos os que efetivamente chegam até eles. Prostro-me diante da opulência desgarrada de sua Zona Sul, zona de pouca putas, muitos carros caros, muitas casas milionárias. A ostentação que se descortina diante de olhares de volúpia, desejo e más intenções. Uma passada de olhos em Bauru, mostra suas chagas luminosas, seus centros de compras, sua noite, sua night, suas avenidas. Bauru se pretende grande, tem ares de capital, se acredita importante. Em Bauru, perdi, chorei, amei, venci, persegui e fui perseguido. Na alma de suas ruas estão gravados a fogo, para a eternidade, beijos velados, escondidas palavras de amor, Rua Saint Martin, Praça Rui Barbosa, o choro amargo do adeus, o doce choro da alegria do reencontro, as mãos apertadas em desespero na reconciliação que não se consumou, as cabeças baixas do funeral, os olhos úmidos da partida e da volta, os espectros contrários de oportunidades perdidas, de paixões fracassadas. Em Bauru perdi mil batalhas. Mas há uma guerra que faço questão de vencer. Quando venho de Marília (mero bairro de minha cidade), a vejo como todos seus cidadãos deveriam ter o direito de ver: dourada à distância, sutilmente ondeada sobre as colinas do cerrado, adornada pelos múltiplos colares de pérolas que as avenidas lhe emprestam. Bauru é amada e odiada. Em Bauru, ensinei a amar. Tive ódio. Fui engolido, tragado pelo turbilhão de emoções que me despertam as lembranças que trago arraigadas no meu espírito. Bauru nunca deveria ser deixada. É uma cidade pra ser levada conosco, para acompanhar-nos, não importa em que cafundós estejamos, por sua eterna melancolia, por suas chuvas noturnas, por seus domingos de manhã e suas missas na Catedral. Por suas feiras livres. Por seu rock and roll. Por seu pretenso urbanismo tardio, sua vida que pulsa ao ritmo do trânsito, do tráfego e do tráfico. Pelos amores que tive e tenho, Bauru estará sempre comigo. Por tantos mundos e paixões desgraçadas, por tantas vidas que se cruzam e se entrelaçam à minha, formando a enraizada teia de aranha que me prende a esse chão. Por tantos - e tantas - que passam e passaram por minha vida em Bauru. Talvez seja esse seu encanto. Talvez por todo o meu vivido, todas as descobertas e experiências, expectativas e derrotas, do leite materno ao vestibular, do "sim" ao "não me procure mais", da carícia ao tiro. De tantas e tantas noites, das crises, da solidão, de porres homéricos, de ressacas idem, de amor e ódio, de carradas e escarradas, de memórias imemoriais, dos fantasmas do meu passado, e de tantos outros, de madrugadas de assombro e alegrias, de tantas lágrimas que chorei, de tudo isso se compõe a lama que escorre do iluminado e falso brilhante, orquídea de limo e mofo dos tempos, de clausuras e falsidades, de furtos e romances, preciosa pedra rara, perdida nos becos e ruelas de sua podridão. Borboleta que se debate de rancores, só lhe faltando o tango. Alma magra e traída, negada de sua própria existência. Angústia vivente, lhe falta apenas o piedoso cadafalso, o tiro de misericórdia do suicídio.

Bauru era, muito antes de que eu viesse. Será, muito tempo depois que eu me for.
Bauru é, foi e sempre será a alma lavada do poeta, mijando na calçada.
É, foi e será o desalento do abandono de suas garotas nativas, e das que, de fora, se incorporam aos seus alaranjados postes duplos que iluminam inutilmente, enquanto seus habitantes tateiam às cegas.
Foi e será a família, a casa, o amigo, o latejante córtex de meu cérebro que não me permite esquecer de seu asfalto ondulado pelo sol, seus amanheceres azulados pela neblina de nostálgicos invernos nunca esquecidos.
Foi e será sempre a esquina à noite, a Duque, a música, as festas, o álcool, o beijo, a Getúlio, o escuro do carro, a rosa roubada do jardim das freiras, o sim que é não, o não que é não, o talvez que é um convite, a fumaça do cigarro que lentamente sobe, para, como toda esperança, desaparecer.

Bauru:
Heri. Hodie. Semper.



Ouvindo: Los Hermanos - Conversa de Botas Batidas
enviada por _Seamus_






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